Problemas de Primeira Ordem
quarta-feira, 22 de abril de 2015
A covardia perversa da fofoca
Alguns dos piores tipos de covardia que eu conheço são a calúnia, a difamação e a injúria, que, na linguagem comum, não-jurídica, são aproximadamente o que se chama de fofoca. O ponto comum dessas práticas consiste em dizer uma falsidade ou fazer uma afirmação infundada que ofende a honra de uma pessoa e, portanto, sua condição de pessoa moralmente correta. Essa falsidade ou afirmação infundada pode ser a atribuição de um crime (calúnia), de um ato moralmente condenável (difamação) ou de uma qualidade moralmente condenável (injúria). Esse é um dos piores tipos de covardia que conheço porque a pessoa que sofre a fofoca geralmente está sem a menor condição de se defender, porque ela é feita pelas costas, e, pior, muitas vezes mantém relações cordiais com a pessoa fofoqueira. Por não saber sobre a fofoca, a pessoa que é seu alvo tampouco sabe das consequências da fofoca, ou seja, dos acontecimentos desagradáveis e, para ela, inexplicáveis causados pela fofoca, tal como o distanciamento de pessoas bacanas que acreditaram na fofoca.
Há causas psicológicas e sociológicas da fofoca. Uma das causas psicológicas, dentre muitas, é o prazer que a sensação de poder advinda da fofoca proporciona. A pessoa fofoqueira pensa que sua fofoca exerce algum controle sobre a vida daquele que é alvo da fofoca. Essa causa psicológica está relacionada uma certa causa sociológica da fofoca: a coerção social sobre o comportamento dos seus indivíduos. Quando se trata de uma fofoca de cunho sexual, a presença da cultura da fofoca numa sociedade provavelmente indica que essa sociedade é, ou ao menos finge ser, puritana. Quanto mais puritana uma sociedade, maior é a cultura da fofoca, como um dos mecanismos de coerção do comportamento sexual.
Sejam quais forem as causas desse tipo de covardia, suas consequências são sempre ruins para todos e podem ser devastadoras para a vida daquele que sofre a fofoca. E o fato de quem faz a fofoca sabe disso revela o lado perverso do fofoqueiro. Ele trata a vida alheia como algo banal.
sábado, 18 de abril de 2015
Feminismo, machismo e misandria
É claro que o machismo é institucionalizado. Mas as instituições não criaram a si mesmas. Instituições machistas foram criadas por pessoas machistas e podem ser destruídas por pessoas feministas. Enquanto essas instituições existirem, a sociedade será machista. Mas disso não se segue que todas as pessoas dessa sociedade são machistas, sejam homens, sejam mulheres. Sim há mulheres machistas, assim como há homens feministas. Sim, há homens feministas, se feminismo é definido como a luta contra o machismo, contra a idéia de que os homens têm certos privilégios morais que as mulheres não têm, luta em favor de uma sociedade que reconheça os direitos das mulheres, entre outras coisas. A misandria, o ódio ou desprezo por homens, não é institucionalizada como o machismo, claro. Nem chega perto disso. Mas ela existe. Algumas mulheres são misândricas. São umas poucas, mas elas existem. E sua misandria não se justifica pela existência do machismo institucionalizado. A reação justa a uma injustiça não pode ser uma injustiça. Uma mulher odiar um homem que está lutando pelas causas feministas é tão justificado quanto um negro odiar um branco que está lutando contra o racismo. Mas, é claro, os homens, na sua totalidade, não são afetados pela misandria, pois são poucos os casos e ela, por isso, não é institucionalizada. A sociedade continua machista do mesmo jeito. Mas alguns poucos indivíduos são afetados pela misandria. Eu acho que negar qualquer um desses fatos é um puro e simples tiro no pé do feminismo. É difícil para um homem livrar-se do seu machismo? É. Mas isso pode ser igualmente ou mais difícil para mulheres. Há mulheres que simplesmente desprezam o feminismo enquanto que há homens engajados nele. Já tive discussões com mulheres que defendiam opiniões machistas e que hoje as condenam.
Malévola feminista?
Spoil alert: Se vc não viu o filme, pare de ler aqui! - Um bom filme. Mas o que tem de feminismo nele? Na minha opinião, nada! O que tem de feminismo numa mulher que, por ter sido traída por um homem, lança uma maldição sobre a filha dele, que não tinha nenhuma responsabilidade pelos atos do pai? O que tem de feminismo numa mulher que tem um claro prazer sádico em bater em homens? O que tem de feminismo numa mulher que adora infernizar a vida das fadas que cuidam da menina que ela amaldiçoou? O que tem de feminismo no fato de o verdadeiro amor por uma mulher enfeitiçada não vir de um homem, mas da mulher que a enfeitiçou, porque que quis se vingar numa inocente por ter sido traída? O que tem de feminismo numa história em que o machismo não tem nenhum papel? Nada! Nem a traição, nem a ganância pelo poder são definitórios do machismo. Homens não-machistas e mulheres também traem e têm ganância pelo poder. E o filme não nega isso, pois, no final, Malévola unifica os reinos, depois de uma guerra, fazendo da Aurora o que? A rainha, detentora do máximo poder político!
Sobre fazer o que os machistas fazem
Boa parte (mas não tudo) do que o machista faz e pensa não é errado em si. O único erro dele é pensar que só os machos podem pensar e fazer o que eles fazem e pensam! O machista acha que só macho pode transar sem compromisso, apenas pra satisfazer seu desejo de sexo. Ele acha que não tem nada errado em um macho transar no primeiro encontro (muito pelo contrário). Ele acha que só macho pode transar com muitas mulheres sem que isso arruine sua reputação (muito pelo contrário). Ele acha que só macho pode expor seu peito sem que isso o torne uma pessoa vulgar (seja lá isso o que for).
sexta-feira, 17 de abril de 2015
O que é mérito?
O filme A procura da felicidade conta a história real de um negro sem teto que se tornou milionário. Quem acha esse filme bom tem um tipo especial de cegueira social que o impede de ver a razão pela qual um feriado do dia da consciência negra é importante, embora seja só uma medida reparadora entre outras necessárias. O filme começa mudo e termina calado sobre o sistema em que o protagonista está inserindo e lutando para vencer socialmente. A lição implícita é: o sistema é justo e basta lutar para se dar bem nele. Lutar, se esforçar, é preciso em qualquer sistema. Mas o que o filme não questiona é o fato de que, por conta de injustiças sociais, alguns têm de lutar muito mais e às vezes têm de lutar por algo que outros, como os homens brancos heterossexuais, não precisam. As condições de saídas para a busca da felicidade são claramente injustas na nossa sociedade. Uma forma de manter essa injustiça é negá-la. E uma forma de negá-la é diluí-la dentro da inevitável imperfeição humana, pregando o "dia da consciência humana".
Opressão e proporcionalidade
A proporção de mulheres, negros, homossexuais, etc., na política, nas universidades, etc., não deve necessariamente refletir a proporção desses grupos na sociedade, mas deve contingentemente refletir a proporção desses grupos na sociedade, porque nossa sociedade é machista, racista, homofóbica, etc.
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